Leite materno que seria descartado pode ajudar bebês internados em Salvador
O leite materno é considerado o alimento mais completo para garantir a saúde e o desenvolvimento dos bebês. Além de oferecer todos os nutrientes essenciais, o leite humano ainda contém anticorpos e é capaz de proteger o recém-nascido contra infecções, alergias e doenças crônicas futuras. O aleitamento materno ajuda, por exemplo, a reduzir o risco de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e asma.
Com todas as vantagens que oferece, o alimento é considerado como “padrão ouro” e a melhor ferramenta para combater a mortalidade infantil. Em 1992, a Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (WABA), em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), lançou uma campanha global de conscientização em prol do aleitamento. O nome Agosto Dourado faz alusão justamente ao padrão de qualidade do leite humano.
Para ajudar mães a iniciar e manter a amamentação e também facilitar o acesso de bebês ao leite materno enquanto estão internadas para tratamento, os bancos de leite oferecem seus serviços em diversos hospitais e maternidades do país. É o que explica Íris Beatriz Pinheiro de Oliveira Assunção, coordenadora do banco de leite da Maternidade José Maria de Magalhães Netto, localizada no bairro do Pau Miúdo, em Salvador.
“Somos um banco de leite que integra a rede brasileira, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)”, explicou. Ela também exemplificou como as unidades podem atuar para promover a alimentação dos bebês com o leite materno. O banco realiza a coleta e o manejo necessário para oferecer o leite às crianças internadas. “Uma mãe que não tem o leite materno ainda, ou então são bebês prematuros, bebês que fizeram cirurgia, a gente manipula e envia para eles recebem esse leite humano pasteurizado (LHP)”, exemplificou.
Escassez e demanda nas unidades
Segundo a coordenadora, para suprir essa demanda, as unidades operam com estoque normalmente no limite. “A gente sempre está no limite. Em média, a gente libera de seis a sete frascos de LHP por dia. Cada frasco tem 250 ml”, contou. No entanto, essa demanda é flutuante e pode haver aumentos repentinos no consumo. “Às vezes, tem bebê que está recebendo 1 ml, 2 ml, mas daqui a pouco tem bebê que precisa de 40 ml, 50 ml e pode ser uma dieta de duas em duas horas, ou três em três horas, 24 horas por dia. Se chegar um bebê um pouco maiorzinho, a demanda já cresce bastante”, explicou.
“Com base no mês passado, por exemplo, a gente teve 44 bebês que receberam LHP. No mês retrasado, 37 bebês receberam leite materno. Às vezes a gente chega a 20 litros, 22 litros por dia”. Íris Beatriz contou que, vez por outra, as unidades chegam a ficar com estoques críticos.
“A depender da dieta dos bebês, a gente não consegue suprir, como aconteceu no início do ano, que a gente só estava com três frascos de leite humano”, relatou, ressaltando um dos objetivos da campanha que é divulgar a doação de leite materno. “Realmente é algo que a gente precisa intensificar muito, dar visibilidade a essa causa, porque os bebês se alimentam o ano inteiro. A gente tem essas ações voltadas para o Agosto Dourado, mas é algo que a gente trabalha todos os dias”.
Banco como rede de apoio
O banco também atua dando orientações e auxílio a mães em período de amamentação. “Uma mãe que acabou de ter neném, tem dificuldade de colocar o bebê no peito, uma mamãe que está com ingurgitamento (mama empedrada), que está com mastite (inflamação do tecido mamário) a gente realiza esse atendimento a essa mãe”, disse Íris Beatriz, listando alguns problemas comuns durante a amamentação.
Outra situação em que os profissionais das unidades podem auxiliar as mulheres é quanto à estimulação da produção de leite. “A mãe foi para casa e está com a diminuição de leite, a gente faz também aqui um protocolo para aumento de produção de leite, para que essa mãe mesmo consiga ofertar o leite materno para o bebê até os seis meses de forma exclusiva”, falou ressaltando a importância do alimento durante o período.
O caminho do leite: coleta, pasteurização e análise microbiológica
Conforme ressalta a coordenadora do banco de leite da unidade de saúde, qualquer mãe que tem leite excedente ou que tem um bebê mais velho e ainda produz leite, em qualquer quantidade e que está sendo desprezado, pode ser uma doadora. “Ela pode entrar em contato com a nossa maternidade e se transformar em uma doadora. O único critério mesmo é o cadastro dela e os exames”.
Ela lembrou, ainda, que os exames necessários são os mesmos comumente já solicitados antes do parto. “Então, se é uma mãe que está com todos os exames não reagentes para HIV, VDRL e hepatite B, ela pode entrar em contato, independente do momento em que ela já teve neném”, explicou. Ela ainda ressaltou que, após coletado, o leite passa por um processo de pasteurização e análise microbiológica feita por uma biomédica, para garantir que o leite esteja “100% esterilizado”.
“Recentemente, a gente teve uma mãe que tinha dois filhos, um já tinha um ano e pouquinho e acabou de ter outro neném. Ainda assim ela ordenhava muito. Mesmo dando para o bebê, ela conseguia encher as mamadeiras em quantidade e acabava jogando fora. Aí ela entrou em contato com a gente”, relatou Íris sobre uma doadora.
Via:Bnews